7 de abr. de 2010

(continuação 3) Capítulo 1 - Nikki

O futebol fez com que eu ganhasse respeito, e com futebol e respeito vieram as garotas. Elas começaram a me notar e eu comecei a notá-las. Mas quando eu estava finalmente achando um lugar, meus avós se mudaram – para Jerome, Idaho – e eu tive que começar tudo de novo. Mas dessa vez, foi diferente: graças ao Jommy Dean eu tinha a música. Eu ouvia a rádio dez horas por dia: Deep Purple, Bachman-Turner Overdrive, Pink Floyd. Enfim, a primeira fita que eu comprei foi de Nilsson Schmilsson, por Harry Nilsson. Eu não tive escolha.

Um dos meus primeiros amigos, um caipira chamado Pete, tinha uma irmã que tinha um bronzeado, loira gostosa. Ela andava por aí com um short curto jeans que me dava convulsões de desejo e pânico. Suas pernas eram arcos dourados, e toda noite na cama tudo que eu conseguia pensar era como eu me encaixaria bem entre elas. Eu comecei segui-la como um palhaço, tropeçando nos meus próprios sapatos. Ela passou em uma farmácia, loja de refrigerante e numa loja de discos, quando eu finalmente tinha economizado dinheiro para comprar a fita Fireball do Deep Purple, ela sorriu para mim com seus dentes enormes e brancos e de repente eu me encontrei comprando a fita do Nilsson Schmilsson porque ela tinha falado disso.

Foi em Jerome que comecei a cair e que me levou para o Alcoólicos Anônimos anos mais tarde, onde, coincidentemente, eu me encontrei e me tornei amigo de Harry Nilsson. (Em fato, em um ilusório estado de sobriedade, nós atualmente falamos de colaborar em um álbum.) Jerome tem uma a taxa mais alta de alcoolismo per capita de qualquer cidade dos Estados Unidos, o que é impressionante para uma cidade com três mil habitantes.

Eu também fiz amigos como um cara imbecil chamado Allan Week, nós matávamos tempo na casa dele, ouvindo Black Sabbath e Bread e olhando para o anuário da nossa escola, falando com qual garota nós queríamos sair. Claro, quando isso acontecia, éramos patéticos. Nas danças do ensino médio nós ficávamos de fora, ouvindo a música pela porta e nos sentindo incomodados quando as garotas passavam pela gente porque nós estávamos super assustados para dançar com elas.

Naquela primavera, nós ficamos sabendo que uma banda local estava vindo para tocar na nossa escola e compramos ingressos. O baixista tinha um cabelo afro gigante, como Jimi Hendrix, e o guitarrista tinha um cabelo longo e um bigode, como Hell’s Angel. Eles pareciam legais: eles usavam instrumentos de verdade, eles tinham grandes amplificadores, e eles manteram trezentas crianças encantadas em um ginásio em Jerome. Essa foi a primeira vez que eu vi um show ao vivo, e fiquei pasmo (embora eles provavelmente estivessem odiando quem os reservou em uma merda de uma escola do ensino médio). Eu não me lembro como eles se chamavam, o que eles tocavam, ou se eles tocavam músicas próprias ou covers. Tudo que eu sabia era que eles pareciam deuses.

Eu era tão tolo que nunca tive uma chance com a irmã de Pete, então eu me estabeleci com Sarah Huper: uma gorda, sardenta de óculos, sem shorts curtos, e pernas que pareciam mais semicírculos pálidos do que arcos de ouro. Sarah e eu dávamos as mãos e passeávamos pelo centro de Jerome, que era aproximadamente um bairro de uma cidade. Depois ficávamos olhando os mesmos discos várias vezes. Às vezes, para impressioná-la, eu saia com um álbum dos Beatles escondido debaixo da minha camiseta e nós ouvíamos na perfeita casa onde seus pais Quaker moravam.

Uma noite, eu estava deitado no tapete verde abacate dos meus avós quando seu telefone Bakelite, que era usado raramente e ficava pendurado na parede sem cadeira ou mesa em volta dele, tocou. “Eu quero te dar um presente” a voz do outro lado – Sarah – disse.

“Bem, o que é?” eu disse.

“Eu irei te dar as iniciais,” ela sussurrou no receptor. “B.J.”

E eu respondi, “O que é isso?”

“Estou cuidando das crianças. Apenas venha aqui.”

Enquanto andava pra encontrá-la, eu pensava nas possibilidades – uma fita do Billy Joel, um manequim do pequeno Jesus, um baseado enorme? Quando eu cheguei lá, ela estava vestindo uma lingerie vermelha imprópria que era da dona da casa.

“Você quer entrar no quarto?” Ela perguntou, apoiando o cotovelo dela na parede e colocando sua mão em sua cabeça.

“Por quê?” eu perguntei como um idiota.

Então, enquanto as crianças brincavam no quarto ao lado, eu fiz sexo pela primeira vez e descobri que isso era como uma masturbação, mas dava muito mais trabalho.

Sarah, entretanto, não me deixou sair dessa facilmente. Ela queria toda hora: enquanto os pais dela faziam cookies para nós na casa dela, eu metia na filha deles no outro quarto. Enquanto seus pais estavam na igreja, Sarah e eu saíamos com o carro. Era uma coisa que todo cara tem que enfrentar pelo menos uma vez na vida: eu estava metendo na menina mais feia da cidade. Por que não pulamos para a próxima parte?

Então eu larguei de Sarah Hopper e, enquanto eu estava com ela, abandonei Allan Weeks, também. E nunca dei uma merda pra saber como eles se sentiam porque foi a primeira vez que eu tive coragem para acreditar que eu poderia levantar do fundo do poço. Ao invés disso, eu comecei a sair com o pessoal com classe, como um cara que ganhava trezentas libras chamado Bubba Smith. Eu tinha que transar, e usar drogas e beber álcool, que eu pensava que me deixava com um quadril bonito – especialmente sob a luz negra que eu logo comprei para por no meu quarto. E, como qualquer pessoa com um adolescente em casa sabe, quando se tem luz negra no quarto, não pertence mais a eles. Ele pertence aos amigos. Adeus chocolate, chips, cookies e Beatles, olá erva e Iron Maiden.

Eu ainda estava longe dos garotos mais legais em Jerome. Eles tinham carros, e nós tínhamos bicicletas, da qual usávamos para ir andar pelo parque e aterrorizar casais. Eu chegava em casa tarde, acendia um baseado e assistia Don Kirshner’s Rock Concert. E se meus avós tentassem de alguma maneira me constrangir ou me criticar, eu enlouquecia. Eu era demais para eles darem conta de mim noite pós noite. Então eles me mandaram embora para morar com a minha mãe, que migrou com minha meia irmã, Ceci, para a Queen Ann Hill de Seattle. Onde elas viviam com seu novo marido, Ramone, um grande, bondoso mexicano com um cabelo preto baixo e liso na parte de trás.

6 de abr. de 2010

(continuação 2) Capítulo 1 - Nikki

Mudamos-nos para o meio do deserto em Anthony, New Mexico, porque meus avós pensavam que poderiam ganhar mais

fig. 4 Relatório de notas do Nikki da sexta série, Anthony, New Mexico, Gasden School District
















fig. 5 Pai do Nikki, Frank Ferrana

mais dinheiro com uma fazenda de porcos. Nós criávamos galinhas e coelho como porcos também. Meu trabalho era pegar cada coelho, o segurar pelas suas pernas de trás, pegar uma vara, e esmagar na parte de trás da cabeça dele. Seu corpo convulsionava em minhas mãos, sangue gotejava do seu nariz, e eu ficava lá pensando, “Ele era apenas meu amigo. Estou matando meus amigos”. Mas na mesma hora eu soube que os matar era o meu papel na família; isso foi o que eu tive que fazer para me tornar um homem.

A escola era noventa minutos de ônibus em uma estrada sem asfalto e um constante balanço. Quando nós chegávamos, as outras crianças que sentavam no fundão do ônibus me empurravam pro chão e ficavam em cima de mim até eu dar meu dinheiro do lanche. Depois de sete vezes, eu jurei que isso não iria mais acontecer.

Na outra manha, eu trouxe uma lancheira de metal do Apollo 13 e a enchi com pedras no ponto de ônibus. Logo que nós chegamos, eu sai correndo do ônibus e, como de costume, eles me pegaram. Mas nessa hora, eu comecei a girar, quebrando narizes, amassando cabeças, e espalhando sangue por todo lado até que a lancheira quebrou aberta no rosto de um idiota inato.

Eles nunca me foderam denovo – e eu me senti poderoso. Ao invés de me encolher perto das outras crianças, eu apenas pensava “Não fique comigo, porque eu irei te foder”. E eu falava: “se alguém me empurrar, eu irei encher de porrada”. Eu estava louco, e todos começaram a fazer isso e manter tal distância. Ao invés de atirar pedras quando eu estava sozinho, eu comecei a andar pelas estradas de terra com a minha arma BB, roubando todas as coisas animadas e inanimadas. Minha única amiga era uma velha dama que vivia em um trailer próximo, totalmente sozinha no meio do deserto. Ela sentava em seu sofá desbotado estampado com flores e bebia vodka enquanto eu alimentava o peixinho-dourado.

Depois de um ano vivendo em Anthony, meus avós decidiram que criar porcos não era o caminho para a riqueza que eles achavam que era. Quando eles me disseram que iríamos voltar para El Paso – um quarteirão da outra casa – eu fiquei cheio de alegria. Eu poderia ver meu amigo Victor de novo.

Mas eu não era mais o mesmo – eu era cruel e destrutivo - e Victor tinha encontrado novos amigos. Eu passava por sua casa no mínimo duas vezes por dia, sentindo cada vez mais meu isolamento me irritando, antes da caminhada pela escola para ser atacado com equipamentos de esporte pelo Distrito de Gasden Júnior que eu odiava. Eu comecei a roubar livros e roupas dos armários das pessoas e entrava na loja principal, Piggly Wiggly’s, e roubava doces e colocava Hot Wheels nos sacos de pipoca de dez centavos esperando que as pessoas pudessem engasgar. De Natal, meu avô vendeu a maioria dos seus bens - incluindo seu rádio e seu único terno – apenas para me comprar uma faca, e eu retribui seu sacrifício usando isso para golpear pneus. Vingança, ódio a si mesmo, e aborrecimento abriram caminho para a delinqüência juvenil para mim. E eu escolhi seguir isto até o fim.

Meus avós eventualmente se mudaram para Idaho, para um milharal com 60m² em Twin Falls. Nós morávamos perto de um buraco de silagem, que é onde o excesso de palha e resíduos que sobram após a colheita são despejadas, misturadas com produtos químicos, cobertas com plástico e deixadas apodrecer na terra, até eles federem o bastante para dar de comida para vacas. Eu vivia uma vida como de Huckleberry Finn nesse verão – pescando no riacho, andando pela estrada de ferro, esmagando dinheiro debaixo dos trens, e fazendo montes de feno.

Muitas manhãs, eu corria pela casa, fingindo que eu tinha uma moto, então eu me trancava no quarto e ouvia a rádio. Uma noite, o DJ tocou “Big Bad John”, do Jimmy Dean e eu perdi minha cabeça. Aquilo cortou o tédio como uma foice. A música tinha estilo e atitude: isso era legal. “Eu encontrei” eu pensei. “Isso era o que eu estava procurando”. Eu liguei tantas vezes para a rádio pedindo “Big Bad John” que o DJ disse para eu parar de ligar.

Quando a escola começou, era como Anthony novamente. As crianças me atormentavam e eu tinha que recorrer aos socos para elas pararem. Eles tiravam sarro do meu cabelo, do meu rosto, dos meus sapatos, das minhas roupas – nada de elogios. Eu me sentia um quebra cabeça com um pedaço faltando, e eu não podia compreender o que aquele pedaço era ou onde eu poderia encontrá-lo. Então eu entrei para o time de futebol porque violência era a única coisa que me dava poder diante aos outros. Eu fiquei na primeira linha, e joguei no ataque e na defesa. Eu cresci como um final defensivo onde eu pudia bater nos zagueiros. Eu amava machucar esses filhos da puta. Eu estava psicótico. Eu tive muito trabalho no campo, eu gostaria de arrancar meu capacete e esmagar outras crianças com ele, como se fosse minha lancheira do Apollo 13 em Anthony. Meu avô sempre me diz, “Você toca rock como você jogava futebol”.


5 de abr. de 2010

(continuação) Capítulo 1 - Nikki

Meu pai ficou por aí o bastante para me dar uma irmã que, como meu pai, eu não me lembro. Minha mãe sempre me disse que minha irmã tinha ido









fig. 2 Mãe do Nikki, Deana




















Fig. 3


morar em outro lugar quando era menor e eu não era permitido de vê-la. Não era depois de trinta anos que eu iria descobrir a verdade. Para minha mãe gravidez e crianças foram sinais dizendo para ela ir mais devagar – conselhos que ela considerava por um curto tempo até ela começar namorar Richard Pryor.

Na maior parte da minha infância, a idéia de uma irmã e um pai estava além da minha compreensão. Eu nunca pensei em mim vindo de um lar cheio de problemas, porque eu não tive nenhuma lembrança de lar sem ser eu e minha mãe. Nós vivíamos no nono andar do St. James Club – então conhecido como Sunset Towers – na Sunset Boulevard. E eu quando eu entrei no estilo de vida dela, ela me mandou morar com meus avós, que estavam constantemente em mudança, vivendo em um milharal em Pocatello, Idaho, ou em um parque de pedras no sul da Califórnia, ou em uma fazenda de porcos em New Mexico. Meus avós constantemente se colocavam em risco por pegar uma custódia legal de mim se minha mãe não parasse de festejar. Mas ela não me abandonou completamente nem me abrandou. A situação ficou pior quando ela entrou para a banda do Frank Sinatra como cantora substituta e começou a namorar o baixista, Vinny. Eu os assistia ensaiando toda hora, com estrelas da época como Mitzi Gaynor, Count Basie e Nelson Riddle e por aí vai.

Quando eu tinha quatro anos, ela se casou com Vinny e nós nos mudamos para Lake Tahoe, que estava se tornando uma pequena Las Vegas. Eu me levantei as seis da manhã em uma pequena casa marrom que nós vivíamos, pronto pra brincar, mas eu acabei sozinho, jogando pedras na lagoa lá fora até eles saírem da cama por volta das duas da tarde. Eu sabia que não podia tentar acordar Vinny, porque ele me colocaria pra fora. Ele tinha sempre um péssimo humor, e com uma pequena provocação ele descontaria isso em mim. Uma tarde, ele estava tomando banho quando ele notou que eu estava escovando meus dentes do lado pro lado ao invés de para cima e para baixo como ele tinha me ensinado. Ele se levantou, pelado, peludo, coberto de água como um macaco pego em uma chuva de granizo, e deu um soco do lado da minha cabeça, me jogando no chão. Então minha mãe, como sempre, ficou furiosa e o atacou enquanto eu corri para a lagoa para me esconder.

Nesse Natal, eu recebi dois presentes: meu pai parou em casa quando eu tava lá fora brincando e, como um gesto fraco para absolver sua culpa ou um esforço genuíno para ser um pai com os pequenos meios disponíveis para ele, me deixou um trenó de plástico vermelho com os puxadores de couro. E minha meia irmã, Ceci, nasceu.

Nos mudamos para o México quando eu tinha seis anos, porque minha mãe e o Vinny tinham conseguido dinheiro suficiente para tirar uma licença de um ano ou porque eles estavam fugindo de algo (mais parecido com alguém com um uniforme azul). Eles nunca me disseram o por que. Tudo que eu lembro era que minha mãe e Ceci voaram para lá, e isso significa que eu tive que atravessar a fronteira com o Vinny e a Belle. Belle era sua pastora alemã que, como Vinny, constantemente me atacava sem ter motivos. Minhas pernas, braços, e meu tronco ficaram cobertos com marcas de mordidas por anos. Desde esse dia, eu ainda não conseguia entender a porra dos pastores alemães. (Isso faz algum sentido que o Vince acabou de comprar um pra ele).

México era provavelmente a melhor época da minha infância: eu corria por aí pelado com as crianças mexicanas na praia próxima a nossa casa de campo, brincava com as cabras e galinhas perambulando pelo bairro como se fosse deles, comia cebiche, entrávamos na cidade procurando por espigas de milho quentinhas enrolados no papel alumínio, e, quando fiz sete anos, fumei maconha pela primeira vez com a minha mãe.

Quando México se tornou passado para eles, retornamos para Idaho, onde meus avós compraram para mim minha primeira vitrola, um brinquedo de plástico cinza que só tocava singles. Tinha uma agulha na tampa, sempre que estava fechado, a música tocava e quando estava aberto, a música parava. Eu costumava ouvir Alvin and the Chipmunks toda hora, do qual minha mãe nunca me deixou esquecer.

Um ano depois, nos amontoamos em um trailer U-Haul e fomos para El Paso, Texas. Meu avô dormia em um saco de dormir do lado de trás, minha avó cochilava em um banco, e eu enrolado no chão como um cachorro. Nos meus oito anos, eu já estava cansado de viajar.

Depois de muito passeio, gastando a maioria do meu tempo com eu mesmo de companhia, amizade se tornou como televisão para mim: algo que me distraia de vez em quando do fato que eu era sozinho. Sempre que eu estava no meio de crianças da minha idade, eu me sentia incomodado e fora do lugar. Na escola, tive dificuldade. Era difícil se preocupar ou prestar atenção enquanto eu sabia que o ano estava acabando, e eu iria embora e nunca mais veria qualquer um desses professores ou crianças de novo.

Em El Paso, meu avô trabalhava em um posto de gasolina da Shell, minha avó ficava no trailer, eu ia para a escola primária local, onde as crianças eram cruéis. Elas me empurravam, e saiam correndo como uma garota. Todo dia como eu andava sozinho para a escola, eu tinha que cruzar o pátio da escola e me bombardeavam com bolas de futebol e comida. Para facilitar minha humilhação, meu avô cortou meu cabelo, do qual minha mãe sempre deixou crescer, no estilo Flattop – não era o mais popular mais tarde nos anos sessenta. Eventualmente, eu comecei a gostar de El Paso porque eu comecei a passar meu tempo com Victor, um mexicano hiperativo que morava do outro lado da rua. Nos tornamos melhores amigos e fazíamos tudo junto, permitindo-me a ignorar as notas das outras crianças que odiavam a minha coragem porque eu era um lixo pobre e branco da Califórnia. Mas quando eu comecei a ficar tranqüilo, o inevitável aconteceu: nós nos mudamos de novo. Eu estava destruído, porque dessa vez eu tinha que deixar alguém para trás, Victor.

4 de abr. de 2010

PARTE 2 - BORN TOO LOOSE (Nascido frouxo demais) - Capítulo 1 - Nikki

fig. 1 Da esquerda:
Rob Hemphill, Frank Ferrana (também conhecido como Nikki Sixx), e amigos na frente da Roosevelt High Scholl, Seattle.



PARTE 2

>> BORN TOO LOOSE <<
(Nascido frouxo demais)
Capítulo 1
Nikki

--

As tentativas e o trabalho do jovem Nikki, no qual nosso herói era barbaramente espancado por escovar os dentes em uma má-aconselhada direção, aprendendo o melhor jeito de matar um coelho, utilizando uma lancheira em autodefesa, segurando mãos com a doce Sarah Hopper, e vendendo crack.

--


Eu tinha catorze anos quando minha mãe foi detida.

Ela estava furiosa comigo ou algo assim – ficar fora até tarde, não fazer tarefa, ouvir música muito alto, estar vestido como um mendigo, eu não consigo lembrar – e eu não pude fazer mais isso. Eu esmaguei meu baixo na parede, joguei meu estéreo pelo quarto, arranquei meus pôsteres do MC5 e Blue Cheer da parede e chutei fazendo um buraco na TV branca e preta do andar de baixo após surrar a porta da frente. Lá fora eu lancei sistematicamente uma pedra contra todas as janelas na casa.

Mas esse era apenas o começo. Eu estava planejando o que viria depois de um tempo. Eu corri para uma casa próxima cheio de drogas que eu gostava de usar para ficar drogado e pedir por uma faca. Alguém me arremessou um estilete. Eu arranquei a lâmina, estendi meu pulso do braço esquerdo e enterrei a faca na direção do cotovelo, deslizando pra baixo por quatro polegadas e fundo o suficiente para que desse pra ver o osso. Eu não senti nada. Na verdade, eu pensava que aquilo tinha ficado bem legal.

Depois eu liguei para polícia e disse que minha mãe tinha me atacado.

Eu queria que eles a prendessem assim eu poderia viver sozinho. Mas meu plano fracassou: a polícia disse que se um menor vivesse em sua custódia, eu passaria a ser acusado, e eles teriam que me colocar em uma creche até eu completar meus dezoito anos. Isso significa que eu não era capaz de tocar minha guitarra por quatro anos. E se eu não poderia tocar minha guitarra por quatro anos, isso significava que eu nunca faria aquilo. E eu estava prestes a fazer aquilo. Não havia dúvida diante disso – pelo menos na minha mente.

Então eu me esclareci com a minha mãe. Eu disse pra ela que como eu não podia processá-la, se ela ia embora, me deixaria sozinho, me deixar ser eu mesmo. “Você não está aqui por minha causa”, eu disse pra ela, “Então me deixe ir”. E ela deixou.

Eu nunca voltei. Esse foi um fim vencido e não pago para uma busca de fuga e independência que tinha sido há muito tempo atrás colocado em movimento. Isso começou como Richard Hell’s a clássica punk “Blank Generation”: “Eu estava dizendo deixe-me sair daqui antes que mesmo que eu tivesse nascido”.

Eu nasci dia 11 de dezembro de 1958, às 7:11 da manhã, em San Jose. Já estava em mim como eu poderia ser, e, até então, provavelmente até na noite anterior. Minha mãe conversou um monte sobre nomes que dão sorte como a que ela teve com homens. Ela nasceu em Deana Haight – uma menina fazendeira de Idaho com estrelas em seus olhos. Ela era brilhante, com força de vontade, motivada, e totalmente linda – como uma estrela de filme dos anos cinqüenta, com um elegante cabelo curto, um rosto angelical, e uma figura que deixa uma reação retardada nas pessoas nas ruas. Mas ela era a ovelha negra da família, o oposto dela perfeitamente, sua irmã mimada, Sharon. Ela tinha um temperamento indomável: completamente excêntrico, propensa à desgraça aleatória, e constitucionalmente incapaz de criar qualquer padrão de estabilidade. Ela era definitivamente minha mãe.

Ela queria colocar meu nome de Michael ou Russell, mas antes ela pediu pra enfermeira perguntar pro meu pai, Frank Carlton Feranna – que estava apenas um tempo longe de abandonar ela e eu pelo nosso bem – o que eu deveria chamar. Ele traiu minha mãe naquele mesmo lugar e me nomeou Frank Feranna, depois dele. E foi isso que eles escreveram na certidão de nascimento. Desde o primeiro dia, minha vida era uma grande merda. Àquele ponto, eu deveria engatinhar implorando para os meus “fabricantes”, “Podemos recomeçar? ’’.


2 de abr. de 2010

Capítulo 2 - Mick

Capítulo 2

Mick


--

A perspectiva da casa era que entre Bullwinkle e a forma de vida extraterrestre era a mesma coisa.

--


Eu costumava dizer para eles, “Vocês sabem qual o problema de vocês? Quando vocês fazem alguma coisa vocês são pegos. Esse é o jeito que vocês fazem as coisas.” Então eu peguei uma dose e atirei pelo cômodo e ninguém sabia que merda que tava acontecendo. Eu sempre era o primeiro a saber como fazer coisas como essas sem ser pego. Eu acho que eu era o estranho.

Eu tive meu canto em Manhattan Beach com a minha namorada. Eu nunca

sai daquela casa. Eu tinha feito aquilo, visto aquilo. Eu tinha por volta dos vinte e um por um bom tempo e eles continuavam como dezoito. Eu me juntei a eles apenas no Natal, e eles tinham uma pequena árvore que eles roubaram e decoraram com latas de cerveja, calcinhas, meleca de nariz, agulhas, e merda. Antes de nós sairmos para um show no Country Club, eles colocaram a árvore no quintal, cobriram com gasolina e colocaram fogo. Eles pensavam que isso era realmente engraçado, mas pra mim era imprestável.

Esse tipo de coisa me aborrecia muito rapidamente, sabe. Era sempre tanta podridão por lá que você poderia esfregar seu dedo por qualquer superfície que ficaria sujo por debaixo de suas unhas. Eu preferia ficar em casa e beber e tocar minha guitarra. Nikki estava saindo com um tipo de bruxa que ele tinha feito sexo no closet, ou em um caixão na casa dele. Tommy estava saindo com – eu não posso lembrar o nome dela, mas nós a chamávamos de Bullwinkle. E um alce não é um animal bonito. Ela ficou louca e arrancou os extintores da parede e explodiu todas as janelas para entrar na casa. Pra mim, ela era uma ridícula, pirralha, possessiva que era maluca ou algo assim. Eu nunca

fig.3

fui violento como isso, quebrar as janelas em pedaços e correr o risco de me machucar.

O que está dentro de pessoas como essa é coisa demais pra mim. Todo mundo gosta de parecer ETs, mas eu penso que nós somos ETs. Nós somos descendentes dos encrenqueiros de outro planeta. Apenas como Austrália é uma prisão para a Inglaterra, onde eles buscam por todos seus crimes e assim por diante, é a mesma coisa na Terra. Isto é onde eles nos deixam. Nós somos as pessoas insanas de algum outro lugar, apenas um bando de lixo.

Minhas costas doem.